Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:
A globalização e a perda de identidades culturais (I) :
René Ariel Dotti
Fala-se muito nos dias correntes – e não raro com entonação eufórica – da globalização como fenômeno de progresso das sociedades modernas. Trata-se de um termo utilizado há vários anos pelos economistas para descrever algo como recente mas que, na realidade, existe desde o início do século e que foi descrito por Lenine, em sua obra Imperialismo, estágio supremo do capitalismo: crescimento e primazia das exportações de capital, desenvolvimento da divisão internacional do trabalho, dos trustes multinacionais, interconexão das economias dos diferentes países, etc. Como lembra o economista francês, Pierre Size, este nome surge pelo fato de que tal processo tomou uma amplitude particular desde os anos 80, em que a desregulamentação generalizada acelerou as condições da concorrência no plano mundial e o desenvolvimento dos meios de transporte e telecomunicações suprimiram um a um os obstáculos à deslocação de centros de produção. Ao mesmo tempo, as crises econômicas, que no passado levavam meses ou anos para se propagar, agora tocam todas as praças financeiras em alguns instantes. (Dicionário da Globalização, tradução e adaptação de Serge Goulart, Florianópolis: Obra Jurídica Editora, 1997, p. 55/56).
Um dos meios para evitar que as sociedades humanas sejam vítimas do processo da globalização – e conseqüente massificação – da cultura é a criação de academias para explorar o universo das culturas locais. E o Paraná é um cenário multifacetado pela Cultura e Civilização de povos e raças que aportaram nos campos e nas cidades, vindos das mais distantes regiões do mundo, ampliando os espaços do antigo caminho das tropas para uma imensa terra de todas as gentes, uma espécie de liga das nações.
Afinal, como diz muito bem o poeta, crítico e ensaísta João Manuel Simões: “Vivemos a era da globalização tecnológica. Mas onde fica a globalização humanística?” E com a luz dos grandes espíritos ele mesmo arremata: “O progresso tecnológico promove uma grande metamorfose: transforma homens livres em servos de máquinas e apertadores de teclas”. (Cem pensamentos sem pretensões, Editora Progressiva, Curitiba, 2004, p. 10 e 16).
A mística da globalização – que massifica a informação, anula a liberdade de criação e extingue a imaginação – que é um reduto indevassável da alma – se parece com a dominação e o obscurantismo religiosos de períodos da Idade Média.
O pensamento medieval, dominado pela religião, cede lugar a uma cultura voltada para os valores do indivíduo. Os artistas, inspirando-se uma vez mais no legado clássico grego, buscam as dimensões ideais da figura humana e a representação fiel da realidade. Esse período corresponde à Baixa Idade Média e início da Idade Moderna (do século XIII ao XVI) e pode ser dividido em Duocento (1200 a 1299), Trecento (1300 a 1399), Quattrocento (1400 a 1499) e Cinquecento (1500 a 1599).
No século XIII, o gótico começa a dar lugar para uma revolução espiritual e cultural que resgata a escala humana. São as primeiras manifestações do que, mais tarde, se chamaria Renascimento e que renovou não apenas as artes plásticas, a arquitetura e as letras, mas também a organização política e econômica da sociedade. “São os indivíduos que fazem a história”. Era assim que se pensava em função daquele movimento de renovação espiritual. Embora a figura humana também fosse um esquema basilar na Idade Média era, porém, deformada e concebida mais como personagem. O Renascimento, ao contrário, interessou-se pelo homem, nascido de mulher e feito de carne e osso.
Na pintura, a principal característica dessa mudança é o surgimento da ilusão de profundidade nas obras. Nos afrescos de Giotto, na Igreja de Santa Croce em Florença, por exemplo, pode-se ver figuras mais sólidas do que as góticas, situadas em ambientes arquitetonicamente precisos, dando impressão de existência concreta: é o nascimento do naturalismo. Ele consegue dar expressão e profundidade às figuras humanas. (Segue).
* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo" de 09.06.2005.
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