Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:

Arnaldo Alves da Cruz - O exemplo de uma vida heróica :

René Ariel Dotti

No final dos anos 70 os meios de comunicação se libertaram das amarras da censura prévia imposta pelo regime militar através de medidas excepcionais de restrição à liberdade de informação. A proteção do consumidor passou a ser um assunto permitido e se integrou no cotidiano das pautas das redações.

    Arnaldo Alves da Cruz foi um dos primeiros jornalistas diretamente envolvidos na luta desse relevante interesse coletivo ao fundar, em 1976, a Associação de Defesa e Orientação do Cidadão (ADOC), entidade civil, sem fins lucrativos e legalmente reconhecida de utilidade pública. Participei, a seu convite, de um Encontro Nacional de Associações de Defesa do Consumidor, realizado em Curitiba de 16 a 18 de novembro de 1979. Ele foi o organizador do evento e o apaixonado defensor de propostas de amparo à cidadania. Na época não havia a proteção legal e institucional que viria com a Constituição de 1988, um código específico e as agências públicas. O ministro da Fazenda, Karlos Rischbieter, compareceu e anunciou medidas contra a inflação. Elogiou a idéia da criação de uma federação nacional para orientação e defesa do consumidor. Denunciou a concorrência ilegal, os monopólios e oligopólios e cunhou a expressão corajosa que seria publicada, em manchete de primeira página, em alguns jornais de circulação nacional: “Capitalismo selvagem”, referindo-se às práticas econômicas e financeiras.  E isso foi dito durante a vigência do Ato Institucional nº 5.

    Agora, um mês depois do passamento de Arnaldo Alves da Cruz, lembro o que mais me impressionou nas notícias e comentários de amigos sobre os dias e os momentos que antecederam a perda física desse notável jornalista e cidadão do mundo.

    De todo o inventário de atividades generosas ao interesse público e de retidão ética no cumprimento dos deveres funcionais, restaram palavras e frases com as quais o ser humano, idealista e corajoso, esculpiu a própria imortalidade. A Gazeta do Povo o acolheu nos anos 70 e lhe atribuiu missões extraordinárias, além da rotina que ele satisfazia com dedicação franciscana e uma disposição de tempo qual um monge trapista. O jornal documentou um testamento oral ditado por palavras que comoveu a equipe médica que o atendia. Pediu que a família e os amigos fossem singelos nas despedidas, que “ninguém chorasse ou se preocupasse com ele” e que as cerimônias fúnebres fossem breves para não provocar maiores sofrimentos. E, para o médico Calixto Antonio Hakim Neto, vigilante e solidário em seu ofício, Arnaldo deixou um pedido: “Quero que sejam doados todos os meus órgãos, que possam ser aproveitados para manter outras pessoas vivas”.

    Ele enfrentou, com a tranqüilidade das almas puras e sem temor, o desafio do momento final. E inverteu a máxima resumida pelo filósofo Sêneca (4 a.C – 65 d.C): “Non mortem timemus, sed cogitationem mortis” (Nós, mais que a morte, tememos o pensamento da morte”).

    O mestre português, J. A. Silva Soares, diz que o instinto de conservação deve ser educado por atitudes profundamente éticas, nas quais o sentido da vida e a sua conservação se integrem no conjunto de todos os valores da pessoa humana. “A capacidade de assumir esses sacrifícios é que torna a vida heróica”.

    Justas homenagens estão sendo prestadas à memória de Arnaldo Cruz.  Um dos laboratórios do curso da Faculdade de Comunicação Social da Unibrasil, em Curitiba, por iniciativa de seu presidente, professor Clèmerson Merlin Cléve vai levar o seu nome, em cerimônia marcada para os próximos dias.

    A vida e a paixão desse exemplo de dignidade humana e profissional tiveram um arremate inesquecível com o seu gesto de doação em favor do desconhecido consumidor. Com a sua vontade de viver através de outrem.

    Uma vontade e um desprendimento espiritual que reencarnam as palavras de Horácio (65-8 a. C) o célebre poeta latino: “Non omnis moriar” (Odes, III, 30, 6).

    E que significam: “Não morrerei de todo; parte de minha obra há-de sobreviver-me”.

* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo" de 02.06.2005.


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