Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente na Gazeta do Povo:
Para muito além das antinomias :
René Ariel Dotti
As notícias e as imagens ainda estavam sendo transmitidas em redes internacionais dos meios de comunicação e nos computadores de todo o mundo, quando já surgiam especulações açodadas e tendenciosas sobre a personalidade, as inclinações e a ideologia do novo ocupante do trono de São Pedro.
Essa deformação, praticada por muitos que têm o compromisso profissional e o dever ético de informar o povo sobre fatos de interesse geral sem apriorismos e rótulos, é deplorável. Figuras humanas portadoras de inteligência, genialidade, bondade, beleza ou outras virtudes são objeto de juízos temerários.
Com a verve e a lucidez peculiares aos seus artigos, o professor Belmiro Valverde Castor Jobim lamenta: “Existe coisa mais primária do que interpretar a eleição do Papa Bento XVI pela ótica dos torcedores do Fla-Flu, do Atlético-Coritiba, do Grêmio e Internacional? O Cardeal Ratzinger constrói uma trajetória intelectual e teológica de sessenta anos de estudo para ter sua vida resumida em uma palavra, ‘conservador’ por críticos que provavelmente não leram as dezenas de livros que publicou, satisfazendo-se apenas com as resenhas feitas por outros críticos?” (“Mentalidade de Fla-Flu”, Gazeta do Povo, 24/4, p. 14).
Esse grave defeito que muitas pessoas revelam no cotidiano de suas atividades ou nas cerimônias de seus credos, lembra o maniqueísmo. Aquela escola de pensamento religioso e filosófico iniciou como uma doutrina dualista elaborada pelo filósofo persa Mani (216 a 277 d.C). Para ele, o Universo foi criado por dois princípios antagônicos, irredutíveis e igualmente eternos: Deus, representando o bem absoluto; e o diabo, o Mal que também seria absoluto. Em outras palavras: Luz e Trevas.
Segundo tal sistema, o diabo seria tão poderoso quanto Deus, e o mal tão irresistível quanto o bem. O ascetismo seria a única via de salvação. A doutrina progrediu para uma religião universal e exerceu enorme influência tanto no Oriente como no Ocidente. Ela se ampliou muito pelo norte da África, onde teve, em 373 a 383, o mais ilustre de seus adeptos: Santo Agostinho.
Outro exemplo do maniqueísmo militante foi a bipolarização ideológica dos anos 50, sob a influência da guerra fria. O preconceito ideológico ditado pelo macarthismo, radicalização pregada pelo senador Joseph McCarty (1907-1957), dividia os cidadãos em comunistas e anticomunistas.
Quanto ao Papa Bento XVI, dois fatos, entre muitos, impedem que sejamos “flagelados pela mesma superficialidade”, como diz Belmiro Castor. O primeiro deles foi o frutuoso debate entre o pensador alemão Jürgen Habermas e o então Cardeal Joseph Ratzinger, em janeiro de 2004, na Baviera, sobre a nova ordem política e cultural do Ocidente. O segundo foi a sua revelação ecumênica, na última terça-feira, na Sala Clementina, no Vaticano, a líderes religiosos de todo mundo. Ele saudou carinhosamente a comunidade islâmica e manifestou alegria pelo avanço do diálogo entre muçulmanos e cristãos, nos planos local e internacional.
Na verdade, Joseph Ratzinger tem um generoso perfil de humanista, estudioso e trabalhador na teoria e na prática dos problemas sociais. Ele freqüenta os sítios da dúvida sem deixar de caminhar os passos da esperança. Em suma, um perseguidor da verdade que merece o elogio do filósofo do Direito, Gustav Radbruch, em antológico texto dedicado ao imortal jurista alemão, Franz von Liszt (Elegantiae Júris Criminalis): ‘Há pessoas que só conhecem tese e antítese, corpo e alma, natureza e espírito, realidade e valor, poder e dever, ou como quer que lhe chamem. Elas podem gabar-se de seu método puro, dos seus conceitos claros, da sua argumentação segura. Pelo contrário, aquele que, para além das antinomias, procura, tateando, a unidade superior, não tem nenhum guia a protegê-lo contra passos errados. Mas só ele pode esperar que uma hora feliz lhe abra caminho para o ponto alto, do qual, na síntese criadora de uma concepção unitária do mundo, se superem todas as aparentes antinomias’.
* artigo publicado no jornal "Gazeta do Povo" de 28.04.2005.
|