Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente no Breviário Forense (Jornal O Estado do Paraná) :
Associação dos Magistrados do Paraná
René Ariel Dotti
A História, a Biografia, a Arte e a Literatura pedem vista
(I)
A leitura
habitual do Juiz na rotina de suas funções é o volume de
petições, documentos, depoimentos e outros elementos dos
processos para proferir o seu veredicto. Uma atividade cercada
pela controvérsia dos fatos apresentados pelas partes e as
dúvidas que não raro ocorrem com a interpretação da lei, que
deve ser orientada para atender aos fins sociais a que ela se
dirige e às exigências do bem comum. Esta é a regra ditada
pela lei de introdução ao Código Civil (Dec.-lei nº 4.657/42),
que, publicado para aclarar textos do diploma de 1916, serve
como subsídio para o atual Código (Lei nº 10.406/2002) e para
a boa aplicação do Direito.
Mas, para
muito além desse permanente empenho de julgar corretamente, o
magistrado precisa também viver fora das fronteiras
assinaladas pelos litígios. Precisa do lazer, como um dos
Direitos Humanos, assim reconhecido pela Declaração Universal
dos Direitos do Homem (Paris, 1948) e pela nossa Constituição,
entre os direitos sociais, como a educação, a saúde, o
trabalho e outros.
Existe o
lazer para o corpo e para o espírito. O esporte e a dança
podem ser exemplos da primeira possibilidade. A arte e a
literatura podem identificar a segunda.
Essas
reflexões surgiram desde logo ao ver a capa da revista
cultural da Associação dos Magistrados do Paraná: Toga e
literatura. O conteúdo é generoso e multifacetado. Há
trechos da vida e da obra de juízes que passaram pelas
comarcas distantes até chegarem ao tribunal. Há depoimentos
originais como a do aluno de Literatura brasileira que
resolveu escrever para Carlos Drummond de Andrade. Ele queria
saber a correta pronúncia de “Pasárgada”, o paraíso
imaginário que Manuel Bandeira concebeu, em sonho poético,
depois de ter lido Xenofonte, que menciona Pasárgada
como pequeno povoado na Pérsia. E o que é melhor: o
destinatário respondeu. Um “cartão manuscrito pelo Poeta,
indica a existência de disco, onde o próprio Bandeira declama
o poema”. Este é um pedaço do registro que Miguel Kfoury
Neto guarda da correspondência mantida com o genial autor de “sentimento
do mundo”. E, marcando sua presença na Toga e
Literatura, o Desembargador lembra o “Testamento”
de Bandeira, que diz, em uma de suas estrofes: “Vi terras
da minha terra./ Por outras terras andei./ Mas o que ficou
marcado/ No meu olhar fatigado,/ Foram as terras que
inventei”.
O caderno
cultural da AMAPAR é editado pela diretora do Departamento de
Memória e Arquivo, Chloris Elaine Justen de Oliveira. A sua
valiosa contribuição para restaurar imagens, gestos e
passagens do tempo é uma das expressões de sua personalidade
que produz os quadros de uma exposição do Poder
Judiciário paranaense.
* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito
e Justiça" de 27.09.2009.
|