Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente no Breviário Forense (Jornal O Estado do Paraná) :

A Ordem dos Advogados e os tipos inesquecíveis (Final)

René Ariel Dotti

Zola Florenzano e o seu mundo brilhante de realidade e fantasia

            Nas últimas eleições da secional paranaense da Ordem dos Advogados do Brasil, tive a satisfação de reencontrar antigos e novos colegas de profissão. Muitos deles apoiando ostensivamente a Chapa XI de Agosto, da qual participei como candidato ao Conselho Federal. Outros, discretos, não revelavam publicamente o voto.  Mas em todos eles pude ver e sentir as imagens e as impressões do tempo. Marcel Proust (1871-1922), em À sombra das raparigas em flor, observa muito bem: “Sabemos teoricamente que a terra gira, mas na verdade não o notamos; o chão que  pisamos parece que não se move e a gente vive tranqüila. O mesmo acontece com o tempo na vida”.

            É certo que não podemos mais viver o tempo que passou e nem reencarnar as emoções produzidas durante os minutos, as horas e os dias que se foram. Mas é possível, com a memória e a imaginação, recompor alguns quadros distantes, com o sentimento de alegria pelo passado que ainda não morreu. “Tempo, suspende o voo: em tantas alegrias,/ Parai, horas propícias!/ E deixai-nos gozar de nossos belos dias/ As rápidas delícias” (Lamartine, 1790-1869, Meditações poéticas: “O lago”).

            Na manhã das eleições, fiz uma pequena viagem de volta no tempo quando um querido e velho amigo aproximou-se e afetuosamente me cumprimentou. E foi logo dizendo: “Estou escrevendo mais um livro”. Zola Florenzano, esse o homem, o pai de Emílio e Suzi, meus colegas no Colégio Estadual do Paraná e que redigiu uma sensível biografia familiar focalizada no filho querido:  Emílio Zola Florenzano – Vida e pensamento de um jornalista do Paraná, Curitiba: Criatividades Editoriais Mayo, 1994.

            O casal Florenzano teve outros três filhos: Luiz Antonio, Suzi e Carlos Rogério. Emílio Zola (1936-1991) recebeu esse nome em homenagem ao imortal escritor francês e defensor, na imprensa, do Capitão Dreyfus. A seu respeito, Haroldo  Murá G. Haygert disse muito bem na obra biográfica: “Há seres humanos que jamais pedirão adjetivos. São  fortes como o substantivo. Caminharão  pela vida com o olhar que, às vezes, pode até lembrar um Quixote ao quadrado. São tipos psicológicos muito especiais, para os quais é preciso prestar atenção redobrada. No campo profissional, não serão jamais simples mortais”.

            E o que dizer do pai de Emílio Zola, um humanista, nascido em 1912, que no livro afirmou a sobrevida espiritual do filho, “negando-se à morte o poder de separação”? Muito e pouco. Principalmente, de seu amor pela vida. Inscrição nº 844 na OAB-PR, ele compareceu para votar, com botton da Chapa XI de Agosto. Eu o levei até a seção eleitoral. Após sair da cabine ele concedeu uma pequena coletiva. Quando uma repórter perguntou-lhe se realmente a sua idade era 97 (noventa e sete!) anos, ele respondeu, na bucha:

            Por enquanto”.


 
* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito e Justiça" de 29.11.2009.


 
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