Artigos do Prof. René Dotti publicados semanalmente no Breviário Forense (Jornal O Estado do Paraná) :
A
arte e a literatura na restauração da tragédia criminal
René Ariel Dotti
O termo
arte deriva do latim (ars, artis) e significa um
certo fazer, um certo saber ou um certo
sentir, como agrado ou deleite. A arte pode ser vista como
manifestação do espírito humano na interpretação do homem, do
mundo e da vida e na criação de referências, valores e
interesses.
Do latim
litteratura (arte de escrever), entende-se geralmente a
arte do belo em que se emprega a palavra como instrumento,
compreendendo não somente as produções poéticas como todos os
textos de natureza estética e científica, técnica ou
tecnológica. A Literatura é um dos meios de expressão e
comunicação do pensamento. Em sua ampla acepção significa o
conjunto de obras em determinado período ou assunto. Fala-se,
então, em literatura jurídica, literatura médica,
etc.
Existem
relações evidentes entre a Arte e a Literatura com o Direito
Penal ou mais propriamente, com a reencenação dos dramas e das
tragédias criminais. Uma obra clássica que trata dessa
aproximação é a do imortal criminalista italiano Enrico Ferri
(1856-1929): Os criminosos na Arte e na Literatura. Ela
restaura condutas delituosas que se tornaram temas no teatro,
na ópera e em filmes. Um dos exemplos foi a sequência de
crimes de sangue na tragédia grega, com seus assassinatos
incestuosos e que também foram objeto de páginas antológicas
de Shakespeare (1564-1616): Romeu e Julieta, Hamlet, Otelo
e Macbeth são algumas das múltiplas criações
geniais do maior poeta dramático da Inglaterra.
Há uma
tradução dos Criminosos ... publicada por Ricardo Lenz
Editor (Porto Alegre,2001). O prefácio à edição brasileira foi
redigido pelo inesquecível mestre, Luiz Luisi (1927-2005). No
livro são demonstradas as íntimas relações entre o fenômeno
criminal e as obras artísticas e literárias que tiveram como
inspiração homicídios e outros delitos.
Em muitos
episódios descritos por Ferri é possível identificar a máxima
de Oscar Wilde (1854-1900): “Life imitates art far more
than art imitates life” (“A vida imita a arte muito
mais que a arte imita a vida”).
As palavras
iniciais de Os criminosos... merecem releitura: “A
arte, esse reflexo sentido da vida, não poderia, mesmo desde
as suas primeiras e mais instintivas manifestações,
negligenciar o estudo das inumeráveis metamorfoses do crime e
da alma criminal na sociedade; não poderia ignorar a comoção
passional que, em presença de um delito, desperta na multidão
uma vaga emoção, incessantemente alarmada e atenuando-se à
medida que se expande, ou que provoca, na consciência do
artista, a representação subjetiva dos personagens misturados
nos dramas da fraude artificiosa ou da violência sanguinária”.
* artigo publicado no jornal "O Estado do Paraná", caderno "Direito
e Justiça" de 28.02.2010.
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