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Artigos / Coluna “A vida e a alma da advocacia” – René Ariel Dotti

 

As lições de Calamandrei

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professor René Dotti

Uma das leituras que mais me impressionou no começo da advocacia foi o consagrado livro do imortal Piero Calamandrei, (1889-1956). Jurista, jornalista, político e professor universitário ele escreveu, com a experiência profissional, o livro Eles, os juízes, vistos por um advogado, do original italiano Elogio dei giudice scritto da um avvocato

É um repositório imenso de causas e casos do cotidiano forense e  um identificador de atitudes, gestos e situações que existem nesse terreno de convivência funcional.

Falando de “Certas relações entre os advogados e a verdade, ou da parcialidade obrigatória dos primeiros”, Calamandrei diz  que num processo, os dois advogados, apesar de sustentaram teses opostas, podem estar e quase sempre estão de boa-fé, uma vez que representam a verdade, tal como a sustentam sob a perspectiva do cliente.  E ilustra essa conclusão com a seguinte imagem: “Há, num museu de Londres, um quadro famoso do pintor Champaigne, no qual se pintou o cardeal Richelieu em três atitudes diferentes. Ao centro da tela, vemo-lo de frente, aos lados vemo-lo de perfil a olhar para o centro. O modelo é um só, mas na tela parece que são três pessoas a conversar, de tal modo são diferentes as expressões da figuras vistas de perfil e, mais do que isso, o ar calmo que, no retrato do centro, é a síntese dessas  figuras. Num processo passa-se o mesmo. Os advogados procuram a verdade de perfil, esforçando o olhar, e apenas o juiz, que está no meio do quadro, vê pacatamente de frente” (Eles, os juízes, cit., p. 96).

Há alguns anos, numa viagem à Inglaterra, visitei a Galeria Nacional, em Londres.  E lá encontrei a obra do pintor flamengo Philippe de Champaigne (1602-1674), Triple portrait of Cardinal Richelieu (óleo sobre tela, com 58,4 X 72,4 cm). Ela expressa muito bem o que disse Calamandrei e pude perceber algumas diferenças, principalmente na expressão do olhar, na disposição dos cabelos e na barba.  Naquele momento lembrei os verdes anos   das primeiras audiências e desse triângulo da verdade representado pelas partes e pelo juiz, ou sejam, as faces e a frente do mesmo rosto.

Não havia um poster em tamanho original. Comprei um cartão de correio do tríplice retrato. Ele funciona como separador de páginas do livro e um alerta de que a verdade deve ser vista por mais de um ângulo.      


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