Artigo: Paixão lúcida pelo ensino e pela advocacia | Dotti e Advogados
41. 3306-8000 | contato@dotti.adv.br

Homenagens / Seção informativa

 

Artigo: Paixão lúcida pelo ensino e pela advocacia

*Para acessar todos os artigos do autor clique no nome acima.

Artigo publicado na Revista Bonijuris – Separata #3 , volume 33, n°4 – edição 671-A, ago/set 2021

 

Ao longo de 86 anos, meu pai soube ter a humildade para aprender e a generosidade para lecionar. A vida toda teve uma profunda ligação com seus alunos

Na manhã do dia 11 de fevereiro de 2021, uma inesperada parada cardíaca afastou meu pai, René Ariel Dotti, do nosso convívio físico. Foi tudo muito súbito. Triste para quem fica, sereno para quem parte.

Desde então multiplicaram-se mensagens de apreço, de consideração, de respeito pelo trabalho e pela vida dele. A corte especial do Superior Tribunal de Justiça, durante a sessão de julgamento daquele dia de fevereiro, prestou-lhe uma belíssima homenagem. Inúmeros tribunais, de diversas partes do país, fizeram o mesmo. A Prefeitura de Curitiba e o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil decretaram luto oficial de três dias. A oab Paraná relatou os principais pontos de sua carreira na edição de março de sua revista. Inúmeros advogados, colegas de trabalho e professores de diversas instituições de ensino homenagearam a pessoa e o jurista René Dotti.

O mais relevante em todas essas manifestações foi a absoluta sinceridade. As palavras espontâneas demonstraram que meu pai soube, ao longo da vida, multiplicar bons sentimentos e valorizar a condição humana de cada um de nós. Na verdade, o significado da vida está no impacto positivo que se pode gerar nos outros. Nossa atuação profissional e nosso convívio pessoal devem ser capazes de gerar bons sentimentos e boas lições. Ele conseguiu fazer isso naturalmente, ouvindo, ensinando e defendendo quem o procurava.

O sonho de juventude de meu pai era ser médico. Sua família era bem humilde. Meu avô trabalhava como pintor de paredes e minha avó era costureira. Ele sempre estudou em escola pública. Como não tinha dinheiro para fazer um curso preparatório para o vestibular, recebeu as apostilas emprestadas de um amigo, estudante de medicina. Ao ler, logo percebeu que não tinha aptidão para estudar química e biologia. Assim, em uma roda de amigos, em um final de tarde, aceitou a sugestão de um deles: prestar vestibular para direito. Foi o que fez. Passou. Segundo ele, não entre os primeiros lugares: “Ficava ali pelo meio da turma”.

Já na faculdade de direito da Universidade Federal do Paraná, enfrentou outro obstáculo: sua timidez gerava uma gagueira constrangedora. Durante uma das aulas, um professor pediu que ele dissesse o seu nome. Ele então respondeu René, e passou a dizer, uma a uma, as letras de seu sobrenome D.O.T.T.I. Não conseguia dizer a palavra Dotti. O professor então respondeu: Obrigado, René D.O.T.T.I! Todos riram…

Para vencer a gagueira ele aderiu a um grupo de teatro da faculdade. Dele fazia parte o amigo de toda a vida, Ary Fontoura. As peças de teatro se multiplicaram e a gagueira foi desaparecendo. No quarto ano, Ary decidiu deixar a faculdade para trabalhar com teatro no Rio de Janeiro. Meu pai não quis ir. Preferiu ficar. A essa altura já sentia a paixão pelo Direito.

Formou-se em 1958 e, em 1959, começou a dar aulas na Universidade Federal do Paraná. Ao longo dos seus 86 anos, soube ter a humildade para aprender e a generosidade para ensinar. Teve, a vida toda, uma profunda ligação com seus alunos. Gostava da convivência com a juventude. Sentia-se bem em apoiar e aconselhar. Acredito que a ajuda foi recíproca, uma vez que ele foi tão ajudado pelos alunos quanto os ajudou.

Após a formatura, já trabalhando com outros advogados, reclamou à minha avó por ela indicar muitos clientes pobres, que não podiam remunerar o escritório. Ela então, visivelmente brava, disse que ele nunca mais deveria repetir aquilo. Lembrou que a vida lhe permitira ser advogado e que, por isso, deveria ajudar quem precisasse dele. Foi uma lição marcante. Em 1961, criou a própria banca de advocacia e, nela, a atuação pro bono passou a ser uma constante. Até o final.

Ali, mostrou uma verdadeira paixão por sua profissão. E ela retribuiu. Ele foi imensamente feliz como advogado. A gratidão dos clientes e a vibração das vitórias compunham o combustível para a energia de seus dias. Mesmo depois de completar 80 anos, nunca deixou de acompanhar o dia a dia do escritório. Mais recentemente, durante a pandemia, continuava a participar das reuniões de modo virtual, pelo computador.

Aliás, este é um ponto admirável: o fascínio que meu pai sempre teve pela tecnologia. Nas viagens internacionais, comprava o que havia de mais moderno para ouvir música e assistir filmes. Estava sempre com alguma novidade. Quando ainda não havia computadores no Brasil, ele importou um, com o apoio de um amigo norte-americano. O mundo novo e a tela – que, na época, era verde – nunca lhe causaram preocupação. Entre os colegas de escritório, todos mais jovens, foi ele quem pela primeira vez substituiu a máquina de escrever pelo computador. Essa foi mais uma lição: não ter medo do novo.

Mas de tudo o que aprendi, as lições mais marcantes foram sobre ética, coragem e solidariedade.

A ética constituiu a base de sua atuação profissional. Meu pai narrava aos colegas de escritório a história do médico e do paciente doente. Este, acometido de uma grave infecção bacteriana, pedia ao médico que recebesse uma parte de suas bactérias. O médico, se aceitasse essa sugestão, acabaria ele próprio doente. Não conseguiria, portanto, curá-lo, muito menos ajudá-lo. Ficariam os dois doentes. Ele dizia que, quando um cliente (por mais poderoso que fosse) pedia ao advogado que faltasse com a verdade perante uma autoridade ou praticasse algo ilegal no processo, estava fazendo algo semelhante ao paciente que pedia para dividir o número de bactérias com o médico. A resposta deveria ser sempre negativa. Agir de acordo com a lei e a ética sempre foi um pressuposto para a boa advocacia.

A coragem, por sua vez, também é fundamental. O advogado deve ter a coragem de enfrentar as autoridades, sempre que isso for necessário para a defesa de seu cliente. Neste ponto, temos duas armas poderosas: a palavra e o direito de petição. Elas devem ser usadas com cuidado e respeito. O enfrentamento mostra-se imprescindível em certas circunstâncias. Mas a coragem do advogado é expressada na resistência respeitosa da petição, do recurso, da luta pelo convencimento judicial. Nunca pelo desrespeito ou agressão à pessoa do juiz.

A solidariedade, por fim, traduz o acolhimento, a escuta, a compreensão. Quem procura um advogado tem um problema, uma angústia e, às vezes, até um drama humano. Precisa, portanto, perceber que a solução ou atenuação daquela situação difícil realmente importa para o advogado. Ouvir e agir, imbuído de um verdadeiro espírito de parceria com o cliente. Isso não é tão comum, mas sempre teve uma imensa importância na carreira de meu pai.

Essas lições de ética, coragem e solidariedade ficarão para sempre em mim, nos meus colegas de escritório e em todos aqueles que foram atendidos por meu pai.

Em 2017, demos uma entrevista juntos para uma revista. O jornalista então perguntou a que ele atribuía a longevidade do escritório (em 2021 estamos completando 60 anos de atividade). Meu pai relatou que um dos períodos mais significativos, do ponto de vista de seu trabalho humano e de sua repercussão, ocorreu durante o tempo do regime militar. Em suas palavras: “De 1964 a 1985 eu atendi perseguidos políticos, defendi presos. Eram estudantes, sindicalistas, jornalistas, professores, advogados que, acusados por um regime autoritário, nada mais faziam senão difundir ideias. Considero esse um período que trouxe para o escritório uma projeção e um reconhecimento. Porque, é preciso destacar, eu não cobrava honorários. Achava que era uma forma de contribuir pacificamente com um tipo de resistência na defesa dos acusados e perseguidos.”

De fato, foram anos muito difíceis. Certa vez, ao sair de casa, minha mãe lhe perguntou: “René, se te prenderem, quem eu chamo?” Como advogado, ele viveu anos sob o risco da violência e arbitrariedade do regime militar. Meu pai falava na “liberdade de não ter medo”. Segundo ele, essa é a mais importante das liberdades pois é a que assegura o exercício de todas as outras.

Ainda naquela entrevista, afirmou que a Dotti e Advogados continuaria mesmo após a sua morte: “Tenho convicção absoluta de que o escritório vai continuar, porque ele está com fundações muito fortes. É como aqueles edifícios que duram muitos anos porque têm fundações que suportam o tempo, que suportam a chuva, o vento – assim como a advocacia tem que suportar as forças negativas da inveja, maldade etc. Ao longo deste ano, Rogéria demonstrou uma liderança muito grande em relação aos colegas – uma liderança com sensibilidade, inteligência e carinho. Isso foi a argamassa dessas fundações. Por isso acredito que as coisas vão continuar”, declarou.

Meu pai sempre teve pelo ensino do direito e pela advocacia o que ele mesmo chamava de “paixão lúcida”. A paixão aqui tem um sentido do trabalho realizado com esperança, com grande entusiasmo e dedicação. A lucidez representa a racionalidade, não agir sob o impacto da emoção. Advogar e ensinar com “paixão lúcida” foi o que ele soube fazer, com maestria.

Nesse caminho profissional, ele teve o apoio constante da esperança. Quando saía de casa, pelas manhãs, minha mãe sempre o acompanhava até a porta para se despedir. E, em momentos difíceis, ela repetia a frase: “Luz e força”. Não é à toa que, em grande parte de seus textos, ele mencionava, ao final, a lição do Padre Antônio Vieira: “A esperança é a mais doce companheira da alma”.

Como ele mesmo dizia, era preciso ter “a prática da esperança” e, com isso, o “encontro da alegria”. Meu pai teve uma vida plena. E continuará a viver em cada um de nós.

Rogéria Dotti. Doutora e mestre em Direito pela ufpr. Vice-presidente da Comissão Especial do cpc do Conselho Federal da oab. Secretária-geral do Instituto Brasileiro de Direito Processual. Advogada.

 

Confira a edição: https://www.editorabonijuris.com.br/editora-bonijuris-lanca-edicao-especial-em-homenagem-a-rene-dotti/

Confira o artigo: “Paixão lúcida pelo ensino e pela advocacia”

 


Voltar