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Artigos / Direito Criminal

 

Um ano sem René Ariel Dotti: o que isso significa para a advocacia

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Artigo publicado no Jornal Estadão, dia 08 de fevereiro de 2022*

Nunca solicitem entrevista com a autoridade sem apresentar um pedido escrito”. Embora o pedido, nos dias de hoje, já possa ser feito de modo virtual, o conselho segue atual: atuem sempre às claras, registrando as razões de seus atos em favor de seus constituintes. René Dotti entregou a gerações de advogados, juízes, promotores, policiais, professores de Direito e operadores jurídicos em geral uma quantidade enorme de valiosas lições acadêmicas e profissionais. Mas a sua maior obra foi o apego à ética na prestação de serviços advocatícios.
Aqueles que puderam dividir com o Prof. Dotti alguns momentos no exercício de sua profissão frequentemente guardam consigo relatos de lances marcantes de sua atuação. Tão intransigente na defesa dos interesses de seus constituintes quanto no respeito que dedicava aos servidores públicos com que se relacionava, foi o último advogado que víamos prontamente levantar de sua cadeira quando, ao recinto da audiência, adentrava o representante do Judiciário. Sua afinidade pela liturgia, no entanto, nunca lhe impediu de buscar a corregedoria quando necessário. “Sejam respeitosos, mas não reverentes”.

Aberto ao diálogo, porém com visão clara dos limites da tolerância frente a condutas arbitrárias do Estado ou da parte contrária, René Dotti foi um advogado combativo, de espírito crítico e raciocínio ágil. Esses predicados lhe garantiram, logo no início de sua carreira, a independência que o guiou durante a ditadura militar, enfrentando com bravura e êxito os desmandos e as ameaças aos seus direitos e aos dos seus clientes. Superado esse período, entendeu que “a mais importante liberdade é a de não ter medo”. E assim ele se conduzia, em sua rotina no escritório e em suas atividades acadêmicas. Trabalhou desde muito jovem até a noite anterior ao seu falecimento, na madrugada de 11 de fevereiro de 2021.

Dotti leva consigo uma vivência única, resultado da soma de uma advocacia intensa em um período conturbado da história brasileira e de uma produção acadêmica quase ininterrupta. Nos últimos 20 anos, passou a se preocupar mais com os colegas iniciantes. “Quando comecei a advogar, eu era sozinho, não tinha ninguém com quem trocar ideias sobre casos difíceis. Eu sofria com isso”. Então, fazia questão de estar presente ao nosso local de trabalho, próximo dos afortunados colegas, colocando-se sempre à disposição para conversar sobre quaisquer pontos dos casos em andamento e estratégias jurídicas. Fazia isso de bom grado, inclusive com advogados de outros escritórios que o procurassem para buscar uma sábia orientação e, especialmente nos últimos anos, com graduandos dos cursos de Direito. René Dotti amou sua vocação.

Ficam, para nós, além das saudades, seus incontáveis bons exemplos. “No início de minha carreira, meus clientes não podiam me pagar. Eu não me importava, eles precisavam de um advogado e eu gosto do que faço”. Solidariedade. Um bom advogado precisa ser sensível à dor alheia. “Se a causa é justa, não deixem que precedentes ou normas contrárias te desanimem”. Perseverança. Um bom advogado sabe a importância do papel que ele desempenha na sociedade. “Quando ganhamos a causa, vocês dão a notícia. Se perdermos, podem deixar que eu ligo”. Liderança. Fundador de um escritório já sexagenário, ele sabia que inspirar seus sócios e colegas é fundamental para o êxito da demanda e do bom relacionamento pessoal. “O cliente está com um problema. Escute-o com paciência e atenção”. Humanidade. Prof. René costumava terminar as primeiras consultas assim: “agora o seu problema é nosso”.

O repertório de ensinamentos é, de fato, vasto. Todos eles podem e devem ser compartilhados, tal como Dotti gostava de fazer, mas infelizmente não cabem todos neste espaço. Na medida em que contribuem para que advogados trabalhem dentro dos limites legais deem o melhor de si em favor daqueles que os procuram, ganha não somente a advocacia, mas a cidadania. Devemos levar a sério e adiante tudo o que aprendemos com o mestre. Pensando assim, quem sabe, possamos compreender que não somente o ano que passou, mas os que virão, serão marcados não por sua ausência, mas por sua presença. Como ele diria: “They don’t die; they go before”.

*Alexandre Knopfholz e Gustavo Scandelari, sócios e coordenadores do Núcleo Criminal da Dotti Advogados

Confira o artigo no Estadão: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/um-ano-sem-rene-ariel-dotti-o-que-isso-significa-para-a-advocacia/ em PDF aqui


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