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Coluna “A vida e a alma da advocacia” – René Ariel Dotti

 

UM MUNDO DE PAPEL

professor René Dotti

Rubem Braga (1913-1990) “é o único escritor brasileiro que não precisa de assunto para escrever bem”, disse o jornalista e mestre em Comunicação Social José Castello, em seu livro biográfico Na cobertura de Rubem Braga (José Olympo, editora, 1996). Outra notável figura do Jornalismo e da Literatura, Joel Silveira (1918-2007), observou que o velho Braga “é o único escritor que conheço que, mesmo sem assunto tem o que dizer. Ele vai te enrolando com as palavras, enrolando, enrolando, e quando você percebe está maravilhado, mesmo sem saber”.

Nesta edição, a coluna deixa os assuntos do cotidiano forense para reproduzir o saboroso texto de quem é considerado “o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis (1839-1908)”. O título é muito expressivo: “Mundo de papel”, que pode conduzir o cidadão para a servidão humana da burocracia. É uma pequena história em uma grande lição.

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            “Foi em Minas, creio, que um secretário de Estado mandou afixar em sua repartição esta frase com um conselho aos funcionários: ‘Não basta despachar o papel, é preciso resolver o caso’. Quem fez isso devia ser um empírico, sem uma verdadeira e fina vocação burocrática. O exemplo mais brilhante dessa vocação deu-o anos atrás um cavalheiro cujo nome não sei; era presidente da Câmara Municipal de São João do Meriti. Foi o caso em que morreu um vereador, e seu suplente quis tomar posse. O presidente exigiu dele a certidão de óbito do vereador. O suplente disse que não a trouxera, mas podia providenciar depois; achava, entretanto, que não havia inconveniente em tomar posse naquela mesma sessão… O presidente respondeu:

‘- Não é questão de conveniência ou inconveniência. O que há é impossibilidade. O suplente não pode se empossar sem estar provada a morte do vereador’.

– Mas Vossa Excelência não ignora que o vereador morreu …

A prova do falecimento é a certidão de óbito.

– Mas Vossa Excelência tomou conhecimento oficial da morte. E como presidente da Mesa, praticou vários atos oficiais motivados por essa morte!

A prova do falecimento é a certidão de óbito.

– Mas o morto foi velado neste recinto. O enterro saiu desta sala, desta Câmara!

A prova do falecimento é a certidão de óbito.

– Mas Vossa Excelência segurou uma das alças do caixão!

A prova do falecimento é a certidão de óbito.

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            E não se foi adiante enquanto o suplente não apresentou a certidão de óbito. Todos os argumentos esbarravam naquela frase irretorquível, perfeita, quase genial, que mereceria ser gravada em mármore no frontispício do DASP: ‘A prova da morte é a certidão de óbito’. Só os medíocres, os anarquistas e os pobre-diabos, condenados a vida inteira a ser suplicantes ou requerentes e que jamais serão Autoridade, não percebem a profunda beleza dessa frase. Eles jamais compreenderão que uma pessoa não pode existir sem a certidão de nascimento nem pode deixar de existir sem a certidão de óbito. Que acima da morte, do bem e do mal, da felicidade e da desgraça está a coisa sacrossanta: o papel. Eu também quero fazer uma frase. Proponho que o DASP investigue o nome daquele antigo presidente da Câmara Municipal de São João do Meriti e, no dia em que ele morrer, mande gravar em seu túmulo (depois, naturalmente, de apresentada a certidão de óbito) esta frase de suprema consagração burocrática: ‘Ele amou o papel’”.


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